REALIDADE URBANA
Imóveis centenários vazios e deteriorados no Centro Histórico denunciam a falta de cuidado de proprietários, herdeiros e autoridades — enquanto a identidade cultural da capital de Mato Grosso se esvai com o tempo.
09 de fevereiro de 2026-Atualizado as 2:12- Redação Gastenny Silva

Foto/Gns Notícias – O esquecimento e o abandono dos casarões do centro histórico de Cuiabá, “é uma verdadeira vergonha nacional”
CUIABÁ — O PASSADO SOB AMEAÇA
Estreia em nosso site o quadro Realidade Urbana, um espaço dedicado a mostrar, de forma direta e responsável, as principais dificuldades enfrentadas pela cidade de Cuiabá e por toda a Baixada Cuiabana.
No coração de Cuiabá, entre ruas que já ecoaram passos de marchantes, festas e decisões históricas, crescem o mato, o pó e o abandono. São centenas de casarões históricos — testemunhas da formação da capital mato-grossense — que hoje resistem precariamente à ação do tempo, muitas vezes sem cuidado, manutenção ou propósito definido.
Um estudo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mostrou que, entre os imóveis do Centro Histórico tombado, dezenas estão sem uso e dezenas já apresentam risco real de desabamento.
IMÓVEIS E SUAS HISTÓRIAS — DO PASSADO AO ABANDONO
Entre os exemplos mais emblemáticos estão casarões localizados nas ruas Pedro Celestino, Campo Grande, Barão de Melgaço e 7 de Setembro, onde construções centenárias resistem com fachadas escoradas ou seguem trancadas há anos.
Uma dessas casas foi construída pelo fazendeiro Manoel Pereira Cuiabano e depois serviu de lar ao colunista social Jejé de Oyá. Em março de 2022, a edificação desabou parcialmente, reforçando o alerta de risco permanente no Centro Histórico.
Outro exemplo é o tradicional Casarão de Bem-Bem (também chamado Casa de Nhô-Nhô de Manduca), tombado pelo Iphan e de propriedade de Constança Palma Farias. Parte da sua fachada caiu após fortes chuvas, e desde então uma intervenção técnica da Prefeitura e do Iphan foi determinada judicialmente para evitar novo desabamento.
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Há ainda dezenas de imóveis cujo destino, proprietários ou herdeiros permanecem envoltos em burocracia, litígios ou omissão — muitos simplesmente não registraram projetos de restauração, não pagam manutenção ou não demonstram interesse em conservar o patrimônio.
TITULARIDADE E HERANÇA: UMA REDE DE PROBLEMAS LEGAIS
A titularidade de muitos desses casarões pertence a particulares ou a herdeiros que, muitas vezes, não vivem na cidade, não demonstram interesse financeiro ou cultural na manutenção do bem, ou ainda travam disputas judiciais que se arrastam por anos. A falta de providências abre espaço para que imóveis fiquem vazios, sujeitos à depredação e até à ocupação irregular por pessoas em situação de rua ou usuários de drogas — uma realidade que moradores e comerciantes locais relatam com frequência.
Casos em que proprietários pedem à Prefeitura a doação do imóvel tombado, como ocorreu com um casarão na Rua Pedro Celestino, mostram como a inércia legal pode transformar patrimônio em problema urbano — o processo está em tramitação há anos.
Existem ainda situações em que imóveis tombados foram reintegrados ao patrimônio da Prefeitura após o dono morrer sem herdeiros, como aconteceu com um casarão cujo espólio do servidor público Paulo Murtinho foi incorporado ao patrimônio municipal.
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AUTORIDADES E SUAS RESPOSTAS
As autoridades municipais e estaduais afirmam reconhecer a importância da preservação histórica. No entanto, ações concretas esbarram em recursos escassos, na necessidade de projetos técnicos de restauração e na resistência de proprietários.
O Iphan e a Prefeitura já anunciaram iniciativas, como a inclusão de alguns imóveis no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas e investimentos federais em restaurações, mas especialistas alertam que isso ainda é insuficiente frente à escala do problema.
Na esfera municipal, a Prefeitura intensificou ações de fiscalização contra terrenos e imóveis abandonados para combater focos de arboviroses e riscos sanitários, mas essas medidas tratam mais do entorno urbano do que da preservação arquitetônica ou da restauração dos casarões históricos.
O CLAMOR DOS MORADORES E A URGÊNCIA DA AÇÃO
Moradores e comerciantes que convivem com o cenário diário de fachadas desbotadas, telhados caídos e prédios escorados expressam frustração com a lentidão das ações e com a perda progressiva de identidades que marcaram a história cuiabana.
“Triste ver que casas que pertenceram às famílias tradicionais, onde já foram realizados eventos culturais e sociais importantes, estejam vazias e sem cuidado”, lamenta um comerciante próximo ao Beco do Candeeiro.
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Especialistas em patrimônio reforçam que sem políticas públicas efetivas de incentivo à restauração, educação patrimonial e parcerias com proprietários e investidores, uma fatia importante da história de Cuiabá poderá desaparecer para sempre.
REFLEXÃO FINAL
Os casarões abandonados do Centro Histórico de Cuiabá são mais do que construções deterioradas: são fragmentos de memória, testemunhas de vidas, eventos e transformações que moldaram a capital. O desafio agora é decidir se esses espaços serão apenas relíquias do passado ou pontos de reencontro entre a cidade e sua própria história.
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Foto/Gns Notícias
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