“Com a retirada das últimas composições, encerra-se de vez o projeto do VLT em Mato Grosso, após mais de uma década de investimentos e paralisações.”

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Após anos de abandono, últimos vagões do VLT deixam Mato Grosso em meio a polêmica e prejuízo bilionário
Mais de uma década após o início das obras e sem jamais ter transportado um único passageiro, os últimos vagões do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) começaram a ser retirados de Mato Grosso nesta sexta-feira (4). As composições estavam armazenadas desde 2014 em um pátio próximo ao Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, e agora seguem para Hortolândia (SP), onde passarão por inspeções na sede da fabricante CAF antes de serem encaminhadas à Bahia.
Adquiridos pelo governo baiano por R$ 793,7 milhões, os 40 vagões serão incorporados a um novo sistema de transporte em Salvador. O acordo prevê o repasse do valor em quatro parcelas anuais, corrigidas pela inflação, sendo a primeira quitada em dezembro de 2024.
A negociação, no entanto, não encerra o escândalo em torno do VLT em Mato Grosso. A obra foi lançada com grande alarde como um legado da Copa do Mundo de 2014, prometendo modernizar o transporte público da região metropolitana de Cuiabá. O projeto consumiu mais de R$ 1 bilhão dos cofres públicos, mas foi interrompido por suspeitas de corrupção, má gestão e disputas judiciais que atravessaram diversos governos.

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Com a retirada dos vagões, encerra-se de forma simbólica um capítulo marcado por promessas não cumpridas, superfaturamento e impunidade. Até hoje, nenhuma autoridade foi responsabilizada de forma efetiva pelas irregularidades apontadas por órgãos de controle, como o TCU e o Ministério Público.
Enquanto isso, o cidadão mato-grossense amarga o prejuízo de uma obra inacabada que virou símbolo do desperdício de dinheiro público no Brasil.
Inicialmente concebido como uma das vitrines da infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014, o VLT de Cuiabá prometia integrar as cidades de Cuiabá e Várzea Grande por um traçado de 22 quilômetros. O projeto, anunciado com pompa pelo governo estadual à época, previa estações modernas, trilhos elevados e um sistema de transporte de massa de padrão internacional. O que se seguiu, no entanto, foi uma sucessão de escândalos, paralisações e disputas judiciais que transformaram a obra em um dos maiores símbolos do fracasso da gestão pública em Mato Grosso.
As obras foram oficialmente paralisadas em dezembro de 2014, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou indícios de superfaturamento, pagamentos indevidos e irregularidades no processo licitatório. Segundo o próprio TCU, cerca de R$ 315 milhões foram pagos por serviços não executados ou com sobrepreço. Em auditorias posteriores, o Ministério Público de Contas de Mato Grosso também confirmou desvios milionários e omissões graves no acompanhamento da obra.
Em 2018, o governo estadual, então sob a gestão de Pedro Taques (PSDB), rompeu o contrato com o consórcio VLT Cuiabá-Várzea Grande, formado por grandes empreiteiras nacionais, sob justificativa de inexecução contratual e prejuízo ao erário. Em entrevista à época, Taques declarou: “É um caso emblemático de como não se deve gastar dinheiro público. O VLT foi um erro caro e mal planejado.”
Sem solução concreta à vista, a alternativa apresentada foi a substituição do modal por um sistema de Ônibus de Trânsito Rápido (BRT), considerado mais econômico. A decisão dividiu opiniões e motivou protestos por parte de moradores e especialistas em mobilidade urbana, que apontaram a falta de consulta pública e transparência no processo.
Em dezembro de 2022, o governo estadual deu início à remoção das estruturas físicas remanescentes do VLT em Várzea Grande, incluindo trilhos e suportes de concreto, sinalizando o fim definitivo de um projeto que consumiu mais de R$ 1 bilhão em recursos públicos e jamais saiu do papel.
A população, que durante anos conviveu com promessas frustradas, canteiros abandonados e prejuízos indiretos ao comércio local, cobra até hoje a responsabilização dos envolvidos. Mesmo com os inúmeros apontamentos de órgãos de controle, nenhum agente público ou empresa foi condenado com trânsito em julgado pelas irregularidades.

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